Em 25 de fevereiro de 1960, o Rio de Janeiro foi cenário de uma das mais graves colisões aéreas de sua história. Duas aeronaves que se aproximavam de aeroportos diferentes da cidade chocaram-se no ar sobre a região da Baía de Guanabara, nas proximidades do Pão de Açúcar.
Uma delas era um Douglas C-47A, da família DC-3, prefixo PP-AXD, operado pela Real Transportes Aéreos. A outra era um Douglas R6D-1 Liftmaster, número 131582, pertencente à Marinha dos Estados Unidos. A documentação da ICAO registra a colisão por volta das 16h07 UTC — aproximadamente 13h07 no horário local da época.
Ao todo, havia 64 pessoas nos dois aviões. Apenas três sobreviveram, todas a bordo do avião norte-americano. O balanço definitivo foi de 61 mortos, sendo 26 na aeronave brasileira e 35 no R6D-1. A cronologia oficial da aviação naval dos Estados Unidos confirma também a composição dos ocupantes das duas aeronaves.
O episódio ficou ainda mais conhecido porque aconteceu durante a visita do presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower ao Brasil. Parte dos passageiros da aeronave militar estava no continente para atividades ligadas justamente à programação daquela viagem oficial.

✈️ O que aconteceu na Baía de Guanabara em 1960?
Embora buscas na internet frequentemente resumam o episódio como “avião cai na Baía de Guanabara em 1960”, a descrição mais precisa é outra: dois aviões colidiram em pleno voo e ambos caíram na região da baía.
A aeronave da Real Transportes Aéreos seguia de Campos dos Goytacazes para o Aeroporto Santos Dumont. O avião da Marinha dos Estados Unidos vinha de Buenos Aires, na Argentina, e tinha como destino a região do Galeão.
As duas aeronaves encontravam-se em procedimentos de aproximação quando suas trajetórias se cruzaram. Segundo o resumo publicado pela ICAO, a colisão aconteceu ao sul do Aeroporto Santos Dumont, nas proximidades do conjunto formado pela Urca e pelo Pão de Açúcar.
O DC-3 caiu na água a sudeste do Pão de Açúcar. Já os destroços principais do R6D-1 atingiram a baía ao norte da formação rochosa.
🛩️ Os dois aviões envolvidos na colisão
O avião brasileiro era um Douglas C-47A-25-DK, uma versão da família DC-3 adaptada para uso civil depois de sua ampla utilização militar. Sua matrícula era PP-AXD e ele pertencia à Real Transportes Aéreos, uma das principais companhias brasileiras daquele período.
O PP-AXD realizava um voo regular de passageiros entre Campos dos Goytacazes e o Aeroporto Santos Dumont. A documentação oficial norte-americana registra 22 passageiros e quatro tripulantes, totalizando 26 pessoas. Nenhuma delas sobreviveu.
A segunda aeronave era muito maior: um Douglas R6D-1 Liftmaster, variante militar baseada no Douglas DC-6. O avião, de número 131582, era operado pelo Fleet Tactical Support Squadron One da Marinha norte-americana.
Havia 38 militares a bordo: sete tripulantes, 19 integrantes da United States Navy Band e uma equipe de 12 especialistas em guerra antissubmarino. Trinta e cinco morreram e três sobreviveram.

🗺️ As rotas antes do encontro sobre o Rio
O PP-AXD deixou Campos por volta das 12h10 no horário local, seguindo para o Rio de Janeiro. Durante a aproximação, a tripulação entrou em contato com o controle e recebeu instruções relacionadas aos radiofaróis utilizados para conduzir aeronaves até a região do Santos Dumont.
A ICAO registra que o avião brasileiro passou pelo radiofarol RJ aproximadamente às 13h06 e iniciou o procedimento previsto para sua aproximação.
O R6D-1 havia decolado de Buenos Aires às 8h25. Por volta das 12h56, entrou na área controlada do Rio e começou a cumprir uma sequência de instruções que deveria conduzi-lo pelos radiofaróis da região até sua aproximação ao Galeão.
O sistema utilizado era muito diferente da navegação por satélite disponível atualmente. Os pilotos dependiam de radiofaróis NDB, instrumentos de bordo, comunicações por rádio e instruções do controle para estabelecer sua posição e seu trajeto.
💥 Como aconteceu a colisão entre os aviões?
Um dos pontos centrais da investigação foi justamente a posição atribuída ao avião norte-americano.
Segundo o relatório brasileiro reproduzido pela ICAO, às 13h07 a tripulação do R6D informou estar sobre o radiofarol RJ, a aproximadamente 1.800 metros de altitude. A investigação concluiu, porém, que o avião ainda não havia alcançado efetivamente aquele ponto.
O documento considerou provável que a indicação do radiocompass tivesse sido afetada por interferências conhecidas na região. Entre os elementos mencionados aparece o cabo do bondinho existente entre os morros da Urca e do Pão de Açúcar, cuja influência sobre determinadas indicações já era conhecida e constava de documentação aeronáutica da época.
Enquanto isso, o DC-3 brasileiro já executava o procedimento para aproximação ao Santos Dumont. Ao iniciar uma curva de aproximadamente 180 graus para a esquerda, foi atingido em sua lateral direita pela aeronave norte-americana.
A colisão ocorreu a cerca de 1.600 metros de altitude, segundo o registro do acidente. As duas aeronaves perderam a capacidade de continuar voando e caíram na região da Baía de Guanabara Rio de Janeiro.
📍 O Pão de Açúcar como referência do local do acidente
O Pão de Açúcar aparece repetidamente nas fontes porque oferece uma referência geográfica clara para entender onde ocorreu a tragédia.
A aeronave brasileira caiu na baía ao sudeste da formação, enquanto o avião da Marinha dos Estados Unidos caiu ao norte. O acidente aconteceu, portanto, em uma área muito próxima da entrada da Baía de Guanabara RJ e das rotas de aproximação dos aeroportos cariocas.
A localização também ajuda a entender por que o episódio foi observado e rapidamente repercutiu. Trata-se de uma região cercada por áreas densamente ocupadas e próxima a importantes referências urbanas do Rio.
🎺 Por que integrantes da Marinha dos EUA estavam no Brasil?
A presença de músicos militares entre as vítimas estava diretamente relacionada à viagem de Dwight D. Eisenhower pela América do Sul.
Documentos do Departamento de Estado informam que o presidente norte-americano programou sua passagem pelo Brasil entre 23 e 26 de fevereiro de 1960. Eisenhower esteve no Rio no dia 24 e viajou para São Paulo no dia 25, retornando posteriormente à capital fluminense.
Dos 38 ocupantes do R6D, 19 eram integrantes da United States Navy Band. O memorial da Marinha dos Estados Unidos registra que eles deveriam participar de uma recepção relacionada a Eisenhower e ao presidente Juscelino Kubitschek.
O avião, entretanto, não transportava apenas músicos. Além dos sete tripulantes, havia 12 especialistas norte-americanos em guerra antissubmarino. A cronologia oficial da Marinha é particularmente importante nesse ponto porque evita a impressão incorreta de que todos os passageiros pertenciam à banda.

🚤 O resgate após a queda na Baía de Guanabara
A violência da colisão deixou poucas possibilidades de sobrevivência. Dos 64 ocupantes das duas aeronaves, somente três homens que viajavam no R6D-1 foram encontrados vivos.
Registros jornalísticos publicados no dia seguinte informaram que os sobreviventes receberam atendimento médico no Rio e que as operações de busca seguiram na baía até o anoitecer. Naquele primeiro momento, a imprensa ainda tratava parte das vítimas como desaparecida, antes da consolidação do balanço definitivo.
A existência desses números provisórios ajuda a explicar por que alguns jornais antigos podem apresentar balanços diferentes. Para a contagem histórica final, os registros mais consistentes apontam 61 mortos e três sobreviventes.
🕯️ A tragédia deixou 61 mortos
No avião brasileiro morreram os 22 passageiros e quatro tripulantes. No R6D-1, 35 dos 38 ocupantes perderam a vida.
Entre as vítimas norte-americanas estavam os 19 integrantes da Navy Band. A perda é lembrada pelo memorial naval como um dos episódios mais graves da história da organização musical.
O Departamento de Estado norte-americano registra oficialmente a colisão como um desastre que matou 61 das 64 pessoas que estavam nas duas aeronaves.
A tragédia teve ainda um peso diplomático particular por ocorrer durante a visita presidencial. Em 26 de fevereiro, ao deixar o Brasil, Eisenhower declarou publicamente que partia com o sentimento marcado pelo acidente ocorrido no dia anterior.
O que concluiu a investigação brasileira?
A investigação conduzida pelo Ministério da Aeronáutica brasileiro atribuiu o acidente a uma falha de procedimento relacionada ao piloto do R6D-1.
Segundo a síntese preservada pela ICAO, a conclusão brasileira considerou que houve procedimento inadequado durante o voo por instrumentos e descumprimento das instruções transmitidas pelo Controle de Aproximação do Rio.
Essa interpretação estava ligada, entre outros elementos, à posição do avião norte-americano no momento em que sua tripulação informou ter alcançado o radiofarol RJ.
A análise brasileira considerou que a aeronave se encontrava em outro ponto. Essa diferença de localização foi crucial porque colocou o R6D-1 numa trajetória que acabou coincidindo com a do DC-3.
🇺🇸 A investigação da Marinha americana discordou
A Marinha dos Estados Unidos também realizou uma investigação completa, com cooperação do governo brasileiro e da Real Transportes Aéreos. As conclusões foram suficientemente diferentes para que, a pedido do governo norte-americano, a ICAO publicasse as duas versões no mesmo resumo de acidentes.
A investigação norte-americana não atribuiu a colisão diretamente à forma como as tripulações operavam seus aviões. Em vez disso, apontou uma combinação de fatores relacionados à situação enfrentada pelo controle de tráfego aéreo.
Entre eles estavam a incerteza do controlador sobre a posição inicial do DC-3, a avaliação inadequada do tempo necessário para a reação das aeronaves e dificuldades de comunicação que aumentaram a complexidade do cenário.
O relatório também destacou problemas mais amplos, como as limitações dos equipamentos de navegação e controle então disponíveis e questões de linguagem nas comunicações. Esses fatores foram considerados relevantes, embora a investigação norte-americana não os tenha classificado isoladamente como causa imediata.
Por que não existe uma explicação única e simples?
A diferença entre as investigações é uma das características mais importantes do acidente.
Dizer apenas que “um piloto errou” elimina justamente a parte do caso que os documentos oficiais mostram ser mais complexa. O relatório brasileiro concentrou responsabilidade nos procedimentos da aeronave norte-americana, enquanto a investigação dos Estados Unidos enfatizou a sequência de fatores envolvendo controle, posição das aeronaves, comunicação e tempo de reação.
Há ainda a questão da navegação por NDB. O próprio material reproduzido pela ICAO menciona a possibilidade de uma indicação incorreta de posição provocada por interferência, algo especialmente relevante em uma aproximação realizada com os recursos tecnológicos disponíveis em 1960.
Por isso, o acidente na Baía de Guanabara Rio de Janeiro deve ser compreendido a partir das duas investigações, e não reduzido a uma explicação retrospectiva criada décadas depois.
🗞️ Como a tragédia repercutiu durante a visita de Eisenhower?
Eisenhower estava em São Paulo no momento em que a notícia se espalhou. Documentos diplomáticos registram que, durante o retorno ao Rio, ele e Juscelino Kubitschek conversaram sobre o acidente e manifestaram profundo pesar.
A repercussão ganhou dimensão internacional não apenas pelo número de vítimas, mas pela presença dos militares e dos músicos da Navy Band.
Dias depois, Eisenhower encaminhou a Kubitschek uma mensagem com uma resolução do Senado dos Estados Unidos expressando pesar pelas mortes de brasileiros e norte-americanos.
O acidente, portanto, passou imediatamente de uma tragédia aérea ocorrida no Rio para um acontecimento acompanhado pelos governos dos dois países.
🛫 O controle aéreo do Rio ajuda a entender o acidente
Em 1960, Santos Dumont e Galeão já desempenhavam papéis centrais na aviação carioca. Ao mesmo tempo, o gerenciamento das aproximações dependia de recursos muito diferentes daqueles existentes hoje.
As aeronaves utilizavam radiofaróis não direcionais, conhecidos como NDB, e radiocompassos para determinar sua orientação em relação aos sinais. Os controladores transmitiam altitudes e trajetórias que precisavam ser seguidas pelos pilotos.
O próprio relatório norte-americano destacou a falta de recursos modernos de navegação e de controle como um elemento importante do ambiente operacional daquele dia.
Isso não significa que os sistemas fossem considerados anormais para 1960. Eles faziam parte da aviação daquele período. A importância histórica do relatório está justamente em mostrar como limitações conhecidas puderam se somar a erros de posição, comunicação e avaliação de tempo.
📚 Os documentos que permitem reconstruir o acidente hoje
Uma das vantagens de estudar esse episódio é a existência de documentação relativamente detalhada.
A Circular 64-AN/58 da ICAO preservou o resumo elaborado a partir do relatório brasileiro e, devido às conclusões conflitantes, incluiu também a investigação realizada pelo Departamento da Marinha dos Estados Unidos.
A Aviation Safety Network utiliza justamente essa documentação para registrar as duas aeronaves, suas rotas, o momento da colisão e as conclusões divergentes.
Já o Naval History and Heritage Command confirma detalhes fundamentais, como a identificação 131582, o PP-AXD, o número de ocupantes e a composição do grupo norte-americano.
Esses documentos são importantes porque permitem separar informações consolidadas de números provisórios publicados nas primeiras horas da tragédia.
Uma tragédia que passou a fazer parte da memória da Baía de Guanabara
O acidente de fevereiro de 1960 mostra que a história da Baía de Guanabara não está registrada somente em fortalezas, navios, paisagens ou transformações urbanas. Suas águas também guardam a memória de acontecimentos que ultrapassaram as fronteiras do Rio de Janeiro.
Mais importante do que buscar uma explicação simplificada é compreender como uma sequência de decisões, limitações tecnológicas e dificuldades operacionais pode produzir consequências irreversíveis. As conclusões distintas das duas investigações reforçam justamente a necessidade de analisar documentos, contexto e evidências antes de estabelecer responsabilidades históricas.
Preservar a memória desse episódio é também reconhecer as pessoas que estavam nos dois aviões e entender como a tragédia contribuiu para os registros da segurança aérea de uma época em que a aviação comercial e militar atravessava um período de rápida evolução.



