Laje da besta na Baía de Guanabara

A Baía de Guanabara é frequentemente lembrada por suas águas abrigadas, embarcações e pela paisagem formada pelo Pão de Açúcar, pelo litoral de Niterói e pelas montanhas do Rio. Porém, perto de sua ligação com o Oceano Atlântico existe um fenômeno que contrasta com essa imagem de tranquilidade.

É a Laje da Besta, uma onda de grandes proporções que quebra sobre uma formação rochosa submersa na entrada da baía. Ela fica na região entre o Forte de Santa Cruz, em Niterói, e o Pão de Açúcar e somente aparece com força quando uma combinação bastante específica de ondulação e condições marítimas ocorre.

Por isso, não se trata de uma onda que funciona diariamente ou de um ponto convencional de surfe. Em alguns períodos, o local pode passar despercebido. Quando um grande swell encontra a direção adequada, entretanto, a mudança é radical.

Foi justamente esse fenômeno que chamou atenção nacional em abril de 2021, quando grandes ondas reuniram surfistas como Pedro Scooby, Lucas Chumbo, Carlos Burle, Ian Cosenza e Michelle des Bouillons na Baía de Guanabara RJ.

🌊 O que é a Laje da Besta?

O nome se refere a uma onda que quebra sobre uma elevação rochosa submersa. No vocabulário do surfe, esse tipo de formação é frequentemente chamado de laje ou slab, pois a profundidade pode diminuir de maneira brusca em um ponto cercado por águas significativamente mais profundas.

A Laje da Besta, portanto, não é uma praia. O pico se encontra em uma área de água aberta próxima à entrada da Baía de Guanabara Rio de Janeiro.

O ge publicou, em 2021, a explicação do oceanógrafo físico Douglas Nemes sobre a formação. Segundo ele, enquanto áreas próximas apresentam profundidades da ordem de 18 a 25 metros, existe no ponto da Laje da Besta uma elevação onde a profundidade cai para cerca de 5 metros. Essa diferença ajuda a explicar o crescimento repentino das ondas quando um swell potente alcança a região.

Esse comportamento está de acordo com um princípio conhecido da dinâmica das ondas: quando uma onda que se desloca em águas profundas começa a interagir com um fundo mais raso, sua velocidade diminui e sua altura pode aumentar até ela se tornar instável e quebrar. A NOAA descreve esse processo como parte da transformação das ondas ao encontrarem águas rasas.

📍 Onde fica a Laje da Besta na Baía de Guanabara?

A Laje da Besta está localizada na entrada da Baía de Guanabara, tendo como grandes referências geográficas o Forte de Santa Cruz da Barra, do lado de Niterói, e o Pão de Açúcar, no lado do Rio de Janeiro.

A posição é fundamental para explicar o fenômeno. A parte interna da baía está relativamente protegida das ondulações diretas do Atlântico, mas sua barra funciona como uma ligação entre o ambiente oceânico e as águas interiores.

O Pão de Açúcar está justamente junto à boca da Baía de Guanabara, voltada para o Oceano Atlântico. Já a Fortaleza de Santa Cruz ocupa o lado de Niterói da entrada, formando outra referência visual importante dessa passagem marítima.

Como o fundo rochoso ajuda a criar uma onda tão grande?

Para entender a Laje da Besta, é necessário olhar tanto para o que acontece na superfície quanto para o relevo escondido debaixo da água.

Um swell formado em alto-mar pode viajar por grandes distâncias. Ao atingir águas progressivamente mais rasas, a parte inferior do movimento da onda começa a interagir com o fundo. Ela desacelera, modifica sua forma e pode ganhar altura.

Na entrada da Guanabara, a mudança de profundidade associada à laje produz uma transformação especialmente abrupta. O oceanógrafo ouvido pelo ge explicou que ondas de aproximadamente 3 a 4 metros em águas mais profundas poderiam crescer significativamente ao alcançar aquela bancada.

Isso não significa que toda ondulação produz uma grande Laje da Besta. A direção da energia que chega do oceano é decisiva.

Quais condições fazem a Laje da Besta funcionar?

As coberturas especializadas sobre a Laje da Besta apontam uma característica recorrente: grandes ondulações de sudeste são particularmente importantes para que energia suficiente atravesse a barra e alcance a formação rochosa.

Não basta, contudo, existir mar grande em algum ponto do litoral. O ângulo das ondas precisa favorecer sua entrada na Baía de Guanabara.

Período das ondas, maré, vento e evolução do sistema meteorológico também alteram as condições encontradas pelos surfistas. É essa necessidade de alinhamento entre vários fatores que torna o fenômeno tão incomum.

Ciclones e tempestades localizados sobre o Atlântico podem gerar extensas áreas de vento e transferir energia para o oceano, formando ondulações que posteriormente alcançam o litoral. Mas a existência de um ciclone, isoladamente, não significa que a Laje da Besta necessariamente quebrará.

Por que a Laje da Besta aparece tão poucas vezes?

A raridade está ligada principalmente à geometria da entrada da baía.

A ondulação precisa chegar em uma direção capaz de passar pela barra sem perder grande parte de sua energia. Depois disso, precisa atingir corretamente a área rasa responsável pela transformação da onda.

Por esse motivo, podem existir dias de ressaca forte no Rio de Janeiro em que a Laje da Besta não apresenta as mesmas condições registradas em episódios históricos.

O próprio histórico ajuda a demonstrar essa irregularidade. Em agosto de 2017, foi registrada uma sessão de grandes ondas no local durante uma forte ondulação de sudeste. Já em maio de 2023, Ian Cosenza e Michelle des Bouillons voltaram ao pico durante outro swell raro, com ondas reportadas na faixa de quatro metros.

A Besta, portanto, não segue um calendário fixo. Ela depende do mar.

📏 Qual o tamanho que a Laje da Besta pode atingir?

As estimativas variam de uma sessão para outra, e é importante distinguir ondas observadas no pico de medições instrumentais realizadas por boias em outros pontos do oceano.

Em 21 de abril de 2021, o ge relatou ondas chegando a aproximadamente 5 metros na Laje da Besta durante a sessão acompanhada por Pedro Scooby, Lucas Chumbo, Ian Cosenza, Lucas Medeiros, Michelle des Bouillons e Alemão de Maresias.

Na mesma data, informações do SimCosta reproduzidas pelo projeto Rumo ao Mar indicaram altura significativa de 4,05 metros na boia de Copacabana, com maiores ondas registradas chegando a 4,82 metros. Esses valores mediam o estado do mar naquela estação, e não especificamente a face de cada onda quebrando sobre a laje.

Existem também relatos jornalísticos de episódios anteriores com ondas estimadas acima de seis metros. Como essas medidas geralmente são feitas a partir de observações e imagens, é mais adequado apresentá-las como estimativas, e não como recordes instrumentais oficiais.

🌀 Abril de 2021: quando a Tempestade Potira acordou a Besta

O episódio mais documentado dos últimos anos ocorreu em abril de 2021.

A análise mensal do CPTEC/INPE registra que, em 19 de abril de 2021, um ciclone subtropical se formou sobre o oceano próximo à Região Sudeste. O sistema recebeu o nome de Tempestade Subtropical Potira.

Informações oficiais posteriormente divulgadas pelo INMET, com dados do Centro de Hidrografia da Marinha e outros órgãos meteorológicos, também documentam a existência e evolução da Potira naquele período.

Na quarta-feira, 21 de abril, a forte ondulação atingiu o Rio. O ge registrou ondas na faixa dos cinco metros na Laje da Besta e uma sessão com vários especialistas brasileiros em ondas grandes.

Nos dias seguintes, as condições continuaram chamando atenção. Carlos Burle participou de outra sessão e destacou em declaração reproduzida pelo ge que eventos dessa dimensão são raros no Brasil e exigem equipamento, preparação psicológica e leitura de previsões meteorológicas.

🏄 Quem já enfrentou a Laje da Besta?

A sessão de 2021 reuniu uma concentração incomum de atletas especializados em grandes ondas.

Entre os nomes documentados pelo ge aparecem Lucas Chumbo, Pedro Scooby, Ian Cosenza, Caio Vaz, Lucas Medeiros, Alemão de Maresias e Carlos Burle.

A presença desses atletas ajuda a dimensionar a dificuldade da onda. Lucas Chumbo e Carlos Burle possuem longa experiência em big wave, enquanto Pedro Scooby também é conhecido pelas temporadas em grandes ondas, especialmente em Nazaré, Portugal.

Mas a Laje da Besta não chamou atenção apenas por reunir nomes conhecidos. Aquele swell também produziu dois registros inéditos destacados pela cobertura esportiva.

👩 Michelle des Bouillons e Lucas Fink fizeram história em 2021

O ge registrou Michelle des Bouillons como a primeira mulher a surfar a Laje da Besta durante a ondulação histórica de abril de 2021.

A atleta voltaria a aparecer em registros do local posteriormente. Em maio de 2023, ela e Ian Cosenza surfaram outra ondulação rara na Baía de Guanabara RJ, com ondas estimadas em cerca de quatro metros.

Na mesma sequência de 2021, Lucas Fink foi apontado pelo ge como o primeiro skimboarder a enfrentar a Laje da Besta, adicionando uma modalidade diferente às sessões realizadas no pico.

Há ainda registros anteriores de bodysurf no local. Em julho de 2019, a revista Waves documentou uma expedição de quatro bodysurfers que aguardaram uma janela de swell para entrar na Laje da Besta.

⚠️ Por que a Laje da Besta exige tanta preparação?

Tudo que torna a onda interessante também aumenta sua complexidade.

O fundo muda rapidamente de profundidade, as ondas podem carregar grande volume de água e o pico fica afastado de uma praia convencional. Além disso, a entrada da Baía de Guanabara é uma região marítima com circulação de embarcações.

Em condições de mar severo, a Marinha do Brasil emite avisos específicos para vento forte, mar grosso e ressaca. Oficialmente, o Centro de Hidrografia considera “mar grosso” situações com altura significativa de ondas a partir de 3 metros nas áreas costeiras e emite alertas de ressaca quando há previsão de ondas de pelo menos 2,5 metros atingindo o litoral.

A própria Marinha recomenda que navegantes consultem os avisos meteorológicos e mantenham equipamentos de salvatagem em condições adequadas antes de sair para o mar.

Nas sessões documentadas da Laje da Besta, atletas especializados utilizaram apoio marítimo e planejamento voltado para condições extremas.

A Laje da Besta não deve ser tratada como um pico recreativo comum.

Uma onda entre alguns dos principais cartões-postais do Rio

Uma característica que diferencia a Laje da Besta de muitos outros picos de ondas grandes é seu cenário.

Dependendo do ponto de observação, as fotografias podem reunir a onda, o Pão de Açúcar, o relevo de Niterói e outros elementos da paisagem da Baía de Guanabara Rio de Janeiro.

Em registros de 2023, o ge destacou que a onda se forma em meio a vistas do Pão de Açúcar, Cristo Redentor e Ponte Rio-Niterói.

A Fortaleza de Santa Cruz também ajuda a compreender geograficamente a posição da onda. O conjunto fica em Niterói, exatamente na área que historicamente protege a entrada da Guanabara, e foi definitivamente tombado pelo Iphan em 2024 por sua importância histórica, arquitetônica e paisagística.

🌎 O que a Laje da Besta revela sobre a Baía de Guanabara?

A existência dessa onda ajuda a desfazer a ideia de que toda a Baía de Guanabara apresenta condições marítimas semelhantes.

Quanto mais se avança para seu interior, maior tende a ser a proteção contra a ação direta das ondulações oceânicas. Na barra, entretanto, a influência do Atlântico é muito mais evidente.

A Laje da Besta aparece justamente nessa zona de transição. Uma onda gerada longe do Rio pode atravessar parte do oceano, encontrar a abertura correta da Guanabara e sofrer uma transformação radical ao passar sobre uma formação submarina rasa.

É um exemplo bastante visual de como relevo submerso, direção de onda e condições atmosféricas podem alterar o comportamento do mar em poucos metros.

❓ Perguntas frequentes

Alguns detalhes ajudam a interpretar melhor as previsões e os registros relacionados às grandes ondulações.

Onde consultar avisos oficiais sobre mar grosso e ressaca no Rio?

O Centro de Hidrografia da Marinha mantém uma página de Avisos de Mau Tempo com informações sobre ventos fortes, mar grosso, ressaca e sistemas tropicais ou subtropicais. Os avisos são voltados à segurança da navegação e são atualizados conforme a evolução das condições marítimas.

Existem dados públicos de ondas que podem ajudar a acompanhar o mar?

Sim. A Marinha informa que existem dados meteoceanográficos provenientes de redes de boias, incluindo o Programa Nacional de Boias e outras redes de monitoramento do oceano e nível do mar. Esses dados ajudam pesquisadores e navegantes a acompanhar as condições marítimas, mas não substituem uma avaliação específica do comportamento da onda sobre a Laje da Besta.

Por que uma onda pode parecer maior numa foto do que nos dados de uma boia?

Uma boia pode divulgar a altura significativa, uma medida estatística do estado geral do mar, enquanto uma fotografia pode registrar justamente uma das maiores ondas de uma série. Além disso, quando a ondulação encontra águas rasas, ela muda de velocidade e pode ganhar altura antes de quebrar. Por isso, os números não são necessariamente contraditórios.

Laje da Besta: um fenômeno que mostra outra face da Guanabara

A Laje da Besta chama atenção não simplesmente porque pode produzir ondas grandes, mas porque depende de uma combinação rara entre oceano, relevo submarino e geografia.

Em um lugar conhecido internacionalmente pela paisagem, o fenômeno revela uma dimensão menos evidente da Baía de Guanabara RJ: sua conexão direta com a energia do Atlântico.

Compreender essa onda é também compreender que o mar é dinâmico. Aquilo que em muitos dias parece apenas uma área tranquila de passagem pode, sob determinadas condições, assumir características completamente diferentes. E é justamente essa transformação pouco frequente que tornou a Laje da Besta uma das ondas mais singulares do Rio de Janeiro.