A Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, guarda vestígios de diferentes períodos da história brasileira. Suas águas acompanharam a ocupação indígena, a chegada de navegadores europeus, disputas coloniais, a expansão portuária e as profundas transformações urbanas ocorridas ao redor da baía.
Entre as histórias relacionadas a esse cenário, poucas despertam tanta curiosidade quanto a suposta descoberta de ânforas romanas no fundo da Baía de Guanabara RJ. Os objetos teriam sido observados por mergulhadores e posteriormente associados pelo explorador norte-americano Robert F. Marx a recipientes produzidos durante a Antiguidade.
A interpretação levou à hipótese de que uma embarcação romana poderia ter atravessado o Oceano Atlântico e alcançado o litoral brasileiro muitos séculos antes dos portugueses. Entretanto, essa possibilidade nunca foi confirmada por uma investigação arqueológica conclusiva.
A história das águas da Baía de Guanabara Rio de Janeiro é marcada por navegação, intervenções humanas e mudanças ambientais. Esse contexto torna possível a existência de materiais de diferentes épocas no fundo da baía, mas também dificulta estabelecer quando, como e por quem cada objeto foi depositado naquele ambiente.

⛵ Como começou a história dos romanos na Baía de Guanabara?
Os primeiros relatos que alimentaram a controvérsia surgiram antes da chegada de Robert Marx ao Brasil. De acordo com reportagens publicadas sobre o caso, mergulhadores locais e pescadores já teriam encontrado recipientes de cerâmica ou objetos com formato semelhante ao de antigas ânforas.
O episódio ganhou repercussão internacional em 1982, quando Marx divulgou que havia investigado uma área da baía onde estariam concentrados objetos cerâmicos. Naquele ano, uma reportagem de Walter Sullivan no The New York Times apresentou a hipótese de que os materiais poderiam estar associados a uma antiga embarcação romana.
A imprensa também relacionou ao levantamento o físico Harold Edgerton, professor do Massachusetts Institute of Technology. Edgerton foi um importante pesquisador de tecnologias de imagem e sonar aplicadas a ambientes subaquáticos, embora a utilização desses equipamentos seja capaz apenas de identificar formas ou anomalias no fundo do mar, não de determinar automaticamente a idade e a origem cultural de um objeto.
Robert Marx interpretou os recipientes como possíveis ânforas antigas e sugeriu que poderiam ter pertencido à carga de uma embarcação desviada de sua rota. A hipótese chamou atenção porque, caso fosse comprovada, representaria uma presença europeia na América do Sul muito anterior às viagens portuguesas.
Essa interpretação, porém, surgiu antes que existisse uma escavação arqueológica sistemática capaz de registrar a posição dos objetos, a distribuição dos fragmentos, as camadas de sedimentos e uma possível estrutura naval associada.
🏺 O que são ânforas e por que elas chamaram atenção?
As ânforas eram recipientes de cerâmica utilizados no mundo antigo para armazenar e transportar produtos. Normalmente apresentavam duas alças, corpo alongado e uma base estreita ou pontiaguda, formato que facilitava a organização das peças dentro das embarcações.
Entre os produtos transportados estavam vinho, azeite, molhos, alimentos e outras mercadorias. O Metropolitan Museum of Art conserva, por exemplo, uma ânfora romana de vinho datada de aproximadamente 100 a.C., encontrada no naufrágio conhecido como Grand Congloué B.
Nesse sítio arqueológico, a peça não apareceu isoladamente. Ela fazia parte de uma carga formada por aproximadamente 1.200 a 1.500 ânforas, acompanhada por um contexto naval que permitiu aos pesquisadores relacionar os recipientes a uma embarcação, a uma área produtora e a uma rota comercial.
Esse exemplo mostra por que o formato de uma peça não basta para confirmar sua origem. Diversas sociedades produziram recipientes parecidos, enquanto cópias e reproduções também podem imitar modelos antigos com grande precisão.
A identificação exige o estudo da argila, da técnica de fabricação, das dimensões, de marcas, resíduos, incrustações e do local exato onde o material foi encontrado. A relação com outros objetos e com eventuais partes de uma embarcação é igualmente importante.

🔎 O que foi atribuído aos objetos encontrados?
Segundo as reportagens que divulgaram o episódio, exemplares ou fragmentos relacionados à Baía de Guanabara teriam sido examinados visualmente por especialistas. A professora Elizabeth Lyding Will, pesquisadora de cerâmica e ânforas antigas, foi citada como responsável por comparar algumas características das peças com recipientes produzidos no norte da África durante o período romano.
A semelhança teria sido estabelecida principalmente pelo estilo e pelo formato. Essa análise inicial ajudou a popularizar a possibilidade de uma origem antiga, mas não substituiu o estudo arqueométrico da argila nem estabeleceu a procedência documentada de todo o conjunto.
Também não foi apresentado um casco romano confirmado, uma âncora inequivocamente antiga, moedas associadas à carga, inscrições, instrumentos de navegação ou outros elementos que formassem um conjunto coerente.
A existência de um recipiente semelhante a uma ânfora romana poderia indicar muitas situações diferentes. Para sustentar a chegada de uma embarcação da Antiguidade, seria necessário demonstrar que o objeto estava no mesmo lugar desde aquele período e que fazia parte de um sítio preservado.
📍 Por que o contexto do fundo da baía é tão importante?
Na arqueologia, a posição de um objeto pode ser tão importante quanto o próprio material. Um recipiente retirado do fundo sem documentação perde informações sobre sua relação com sedimentos, estruturas, outros artefatos e características naturais do local.
A Baía de Guanabara Rio de Janeiro registra séculos de circulação de embarcações. Navios comerciais, militares, pesqueiros e de passageiros atravessaram essas águas, enquanto operações portuárias, dragagens, aterros, obras e descartes alteraram partes do leito submerso.
Correntes, redes de pesca, âncoras e intervenções humanas também podem deslocar materiais. Assim, dois objetos encontrados próximos um do outro não necessariamente foram depositados na mesma época.
As regras internacionais de proteção ao patrimônio cultural subaquático determinam que uma pesquisa deve registrar a procedência dos objetos, produzir fotografias, plantas, desenhos, anotações de campo e relatórios. A UNESCO recomenda ainda que métodos não destrutivos sejam priorizados e que a preservação no próprio local seja considerada a primeira opção.
No Brasil, pesquisas arqueológicas dependem de projeto e autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em ambientes subaquáticos, os pedidos são encaminhados à sede nacional do Iphan e avaliados pelo Centro Nacional de Arqueologia.
Quais argumentos sustentaram a hipótese romana?
A hipótese de Romanos na Baía de Guanabara foi construída principalmente sobre quatro pontos: a aparência dos recipientes, a suposta concentração de objetos em uma área, a avaliação estilística atribuída a especialistas e a possibilidade física de uma embarcação antiga atravessar o Atlântico.
A presença de organismos marinhos e incrustações também foi utilizada como sinal de que as peças permaneciam submersas havia bastante tempo. No entanto, incrustações podem se formar em objetos muito mais recentes e não fornecem, sozinhas, uma data arqueológica segura.
A detecção de formas por sonar poderia indicar objetos, elevações, depressões ou estruturas no leito da baía. Entretanto, o equipamento não determina se uma forma corresponde a um navio romano, a uma embarcação de outro período, a resíduos modernos ou a uma formação natural.
Outro argumento era o de que a navegação antiga possuía capacidade suficiente para enfrentar mares abertos. A possibilidade técnica de uma travessia acidental ou intencional, contudo, é diferente da comprovação de que ela realmente aconteceu.
Para transformar essa possibilidade em fato histórico seria necessário reunir provas independentes que apontassem para a mesma conclusão.
A explicação das réplicas depositadas na baía
A controvérsia ganhou um elemento decisivo quando o mergulhador e empresário Américo Santarelli apresentou uma explicação alternativa para pelo menos parte dos objetos.
Segundo informações reproduzidas pela imprensa e posteriormente por pesquisadores críticos da hipótese, Santarelli teria mandado produzir 16 réplicas inspiradas em ânforas antigas. Os recipientes teriam sido colocados na Baía de Guanabara durante a década de 1960 para adquirir incrustações marinhas e uma aparência envelhecida.
Ele teria recuperado somente quatro peças, deixando outras no ambiente. Anos depois, alguns desses recipientes poderiam ter sido encontrados por mergulhadores e interpretados como objetos antigos.
Essa declaração não permite determinar automaticamente a origem de todo fragmento cerâmico já localizado na baía. Ela mostra, porém, que existiam réplicas modernas submersas na região e que a aparência envelhecida não poderia ser usada como comprovação isolada.
Também enfraquece a ideia de que todos os objetos semelhantes necessariamente pertenciam à mesma carga ou ao mesmo período.
🚢 Existiu um navio romano no fundo da Baía de Guanabara?
Não existe, nas fontes institucionais e científicas, confirmação de um navio romano identificado no fundo da Baía de Guanabara RJ.
Robert Marx afirmou ter encontrado indícios de uma embarcação e posteriormente acusou autoridades brasileiras de impedir a continuidade da exploração. Em 1985, outra reportagem do The New York Times noticiou a suspensão de autorizações de exploração subaquática no contexto do conflito entre o pesquisador e as autoridades.
A versão de que a área teria sido deliberadamente encoberta para impedir uma mudança na história brasileira foi negada pelos representantes brasileiros citados na época. A disputa também envolvia questionamentos sobre retirada, declaração e comercialização de materiais recuperados em águas brasileiras.
Sem a documentação de um casco, de sua construção, da carga e da relação entre todos os materiais, a expressão “navio romano na Baía de Guanabara” deve ser entendida como parte da hipótese divulgada por Marx, e não como uma descoberta reconhecida.
🌊 Uma embarcação romana conseguiria cruzar o Atlântico?
Em termos físicos, uma embarcação pode ser empurrada por tempestades, ventos e correntes para longe de sua rota. Navegadores antigos também possuíam conhecimentos marítimos relevantes e realizavam viagens comerciais de longa distância.
Isso não significa que toda viagem teoricamente possível tenha ocorrido. A possibilidade de atravessar o Atlântico não informa qual embarcação fez a viagem, quando ela partiu, quem estava a bordo ou onde terminou seu percurso.
Para confirmar uma travessia romana até o Brasil, seriam necessárias evidências arqueológicas acompanhadas de procedência segura. Também seria esperado encontrar diferentes categorias de materiais, e não apenas recipientes cujo formato pudesse ser reproduzido posteriormente.
Portanto, a pergunta mais importante não é apenas se os romanos poderiam chegar. O ponto científico é saber se existem provas verificáveis de que efetivamente chegaram à região.
O que seria necessário para comprovar a hipótese?
Uma comprovação exigiria uma investigação conduzida por arqueólogos subaquáticos, com autorização, metodologia publicada e participação de especialistas independentes.
Entre os elementos fundamentais estariam:
• mapeamento preciso da área;
• documentação das camadas de sedimentos;
• registro da posição de cada objeto;
• análise mineralógica e química das cerâmicas;
• comparação com oficinas produtoras conhecidas;
• estudo das incrustações e dos resíduos internos;
• identificação de partes de um casco ou de equipamentos navais;
• conservação adequada dos materiais recuperados;
• publicação dos resultados para avaliação científica.
A UNESCO estabelece que projetos subaquáticos devem apresentar objetivos, metodologia, equipe qualificada, planejamento de conservação, documentação e programa de publicação. Também recomenda que as atividades ocorram sob direção de um arqueólogo subaquático devidamente capacitado.
Sem essas etapas, torna-se difícil distinguir uma peça antiga de uma réplica, um objeto perdido de uma carga organizada ou um naufrágio histórico de materiais depositados em momentos diferentes.

O que a ciência permite concluir
A história das supostas ânforas mostra como um objeto sem procedência bem documentada pode gerar interpretações muito maiores do que as evidências disponíveis permitem sustentar.
O caso não comprova uma chegada romana ao Brasil, mas oferece uma lição importante sobre a investigação do passado: sem contexto arqueológico, análise material, documentação pública e revisão científica, uma descoberta aparentemente extraordinária permanece apenas como hipótese.
O verdadeiro valor desse episódio está em incentivar uma relação mais responsável com o patrimônio submerso. As águas da Baía de Guanabara podem guardar registros relevantes da navegação e da formação histórica do Rio de Janeiro, mas essas histórias somente poderão ser compreendidas por meio de pesquisas cuidadosas, transparentes e comprometidas com a preservação.



