Ilha das Enxadas na Baía de Guanabara

A Ilha das Enxadas é uma pequena ilha da Baía de Guanabara profundamente relacionada à história da Marinha do Brasil. Ao longo de vários séculos, o local passou por diferentes usos, incluindo extração de pedras, armazenamento de pólvora, hospital, lazareto, oficinas navais e instituições de ensino militar.

Atualmente, a ilha abriga o Centro de Instrução Almirante Wandenkolk, conhecido pela sigla CIAW. A organização integra o Sistema de Ensino Naval e atua na formação e capacitação de oficiais de carreira e temporários da Marinha.

Sua importância, portanto, não está associada ao turismo convencional, mas à história marítima, ao ensino naval e à presença militar na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.

🏝️ Onde fica a Ilha das Enxadas

A Ilha das Enxadas está situada nas águas da Baía de Guanabara, diante da região central e portuária da cidade do Rio de Janeiro. O endereço institucional do CIAW identifica o local como Ilha das Enxadas, sem número, na Orla Conde.

Sua posição permite que a ilha seja observada de diferentes pontos da região portuária e durante deslocamentos realizados por embarcações na baía. Em determinadas perspectivas, a Ponte Rio–Niterói também aparece ao fundo da paisagem.

Embora esteja relativamente próxima do continente, a ligação com a ilha é feita por embarcações. Não existe ponte ou via terrestre conectando-a à margem.

A localização na Baía de Guanabara RJ contribuiu para que o espaço fosse utilizado historicamente em atividades relacionadas à navegação, ao armazenamento de materiais e à formação de militares.

📜 A origem do nome Ilha das Enxadas

A página histórica do CIAW registra duas versões para a origem do nome da ilha. A primeira afirma que um veleiro espanhol teria chegado ao local com avarias e vendido sua carga de instrumentos agrícolas para pagar os reparos. Por esse motivo, o lugar teria ficado conhecido como Ilha das Enxadas.

A segunda versão, apresentada pela própria instituição como a mais aceita, relaciona o nome à antiga presença de grande quantidade do peixe conhecido como enxada nas águas próximas.

Como as duas explicações são tratadas como versões históricas, não é possível apresentar uma delas como origem documentalmente definitiva do nome.

Em 1619, o local era chamado de Ilha de Vaz Pinto. A denominação aparece relacionada ao governador Ruy Vaz Pinto, a quem os carmelitas solicitaram autorização para retirar pedras da ilha. O material seria utilizado na construção da igreja e do convento erguidos na atual Rua Primeiro de Março.

🏥 Hospital, lazareto e primeiros usos da ilha

Em 1760, José dos Santos Rabelo recebeu autorização para construir uma casa na Ilha das Enxadas. A edificação serviria para guardar a pólvora retirada das embarcações que chegavam ao Rio de Janeiro.

A medida estava relacionada à segurança, pois manter grandes quantidades de pólvora dentro dos navios ou em áreas densamente ocupadas representava risco. A posição isolada da ilha favorecia esse tipo de armazenamento.

Em 1808, a propriedade pertencia ao capitão Felipe Antonio Barbosa. Por determinação do príncipe regente, o local foi cedido para a instalação do Hospital dos Marinheiros Ingleses, criado no contexto da chegada da esquadra que acompanhou a Família Real Portuguesa ao Brasil.

Em 1817, a Ilha das Enxadas passou a receber o Hospital dos Lázaros de São Cristóvão. Transformada em lazareto, permaneceu com essa função até 1823, quando retornou à posse de Felipe Antonio Barbosa.

⚓ A incorporação ao Ministério da Marinha

Em 1825, a ilha foi arrendada ao médico Antonio Martins Lage. Ele adquiriu a propriedade em 1832 e instalou no local um trapiche para mercadorias, depósito de carvão e oficinas destinadas a pequenos reparos navais.

O processo para sua aquisição pelo poder público começou em 1868. Naquele momento, a propriedade estava hipotecada ao Banco do Brasil.

Em 9 de outubro de 1869, a Lei nº 1.735 autorizou o Ministério da Marinha a adquirir a Ilha das Enxadas, concretizando sua transferência para o Estado durante o reinado de Dom Pedro II.

Entre 1871 e 1883, a ilha funcionou como dependência do Arsenal de Marinha. Seus armazéns foram empregados principalmente como depósitos de materiais utilizados na construção naval.

A incorporação marcou o início de uma relação institucional permanente entre a ilha e a Marinha do Brasil, que continuaria por meio de escolas, centros de formação e outras organizações militares.

🎓 A Escola Naval na Ilha das Enxadas

A Escola de Marinha foi instalada na Ilha das Enxadas em 18 de março de 1883. Para receber a instituição, o espaço passou por uma ampla remodelação.

As intervenções incluíram a construção de uma estrutura destinada ao ensino de natação, a implantação de iluminação a gás e a construção do edifício conhecido como Prédio Colonial.

Em 1886, a Escola de Marinha foi unificada ao Colégio Naval e passou a ser denominada Escola Naval. A ilha tornou-se, assim, um dos principais espaços de preparação dos futuros oficiais da Marinha brasileira.

A instituição permaneceu ali até junho de 1914, quando foi transferida para a Enseada da Tapera, em Angra dos Reis. Após a mudança, passaram a funcionar na ilha as escolas de Grumetes e de Profissionais.

Em 1921, a Escola Naval retornou à Ilha das Enxadas. Novas obras foram realizadas, incluindo melhorias em instalações esportivas, estruturas para embarcações e equipamentos destinados ao ensino naval.

Essa segunda permanência terminou em 1938, quando a Escola Naval foi transferida para a Ilha de Villegagnon, onde permanece atualmente.

✈️ A Ilha das Enxadas e a Aviação Naval

A Ilha das Enxadas também desempenhou um papel importante nos primeiros anos da Aviação Naval brasileira.

O Decreto nº 12.167, de 23 de agosto de 1916, criou a Escola de Aviação Naval na ilha. Para adaptar o local às novas atividades, foram construídos dois hangares e uma rampa de acesso às águas da Baía de Guanabara.

A utilização de hidroaviões permitia que as aeronaves decolassem e pousassem diretamente na água. Fotografias preservadas no Acervo Arquivístico da Marinha mostram hangares, aviões em montagem, pilotos e autoridades durante o período de funcionamento da escola.

A história da ilha também se relaciona à primeira travessia aérea do Atlântico Sul, concluída pelos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 17 de junho de 1922.

Os aviadores chegaram ao Rio de Janeiro após uma viagem iniciada em Lisboa e marcada por escalas, acidentes e substituições de aeronaves. Em 26 de junho daquele ano, participaram de uma visita e de homenagens realizadas na Escola de Aviação Naval da Ilha das Enxadas.

Fotografias desse encontro mostram os pilotos portugueses junto a oficiais brasileiros e hidroaviões. Os registros integram o acervo da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha.

O Centro de Instrução Almirante Wandenkolk

A função atual da Ilha das Enxadas está ligada ao Centro de Instrução Almirante Wandenkolk.

A origem da instituição remonta a 1944, quando foi organizado o Centro de Instrução do Rio de Janeiro. No ano seguinte, o Decreto-Lei nº 8.389, de 17 de dezembro de 1945, aprovou o funcionamento do Centro de Instrução Almirante Wandenkolk na ilha.

O CIAW integra o Sistema de Ensino Naval. Sua missão oficial é executar a formação militar-naval de oficiais de carreira e temporários, além de promover cursos destinados à preparação e capacitação de militares.

A formação procura desenvolver conhecimentos técnicos e valores relacionados à disciplina, à liderança e ao exercício das atribuições militares. Dessa forma, a Ilha das Enxadas mantém uma continuidade histórica com as instituições de ensino naval que funcionaram anteriormente no local.

Dados divulgados pela Marinha em 2025 indicam que a ilha possui aproximadamente 49.950 metros quadrados de terreno e 27.779 metros quadrados de área construída. Naquele ano, o CIAW informou que o local recebia a formação de cerca de 450 oficiais anualmente.

🏛️ A importância histórica da Ilha das Enxadas

A trajetória da Ilha das Enxadas reúne diferentes momentos da história marítima brasileira.

O lugar foi utilizado para armazenamento de pólvora, atendimento hospitalar, isolamento sanitário, depósitos de carvão, reparos navais e guarda de materiais do Arsenal de Marinha. Posteriormente, tornou-se sede de instituições dedicadas à formação de marinheiros, aviadores e oficiais.

Sua participação nos primeiros anos da Aviação Naval amplia essa relevância. Os hangares, as rampas para hidroaviões e os registros fotográficos preservados mostram como as águas da Baía de Guanabara foram utilizadas como parte da infraestrutura aeronáutica brasileira no começo do século XX.

A permanência do CIAW mantém a ilha ligada ao ensino militar. Em vez de representar apenas um vestígio do passado, ela continua exercendo uma função institucional diretamente relacionada à sua história.

Por esses motivos, a Ilha das Enxadas ocupa uma posição singular entre as ilhas da Baía de Guanabara Rio de Janeiro, especialmente no campo da memória naval e da formação militar.

🚤 É possível visitar a Ilha das Enxadas?

A Ilha das Enxadas não deve ser considerada uma atração turística de acesso livre. O local abriga uma organização militar ativa e sua utilização está vinculada às atividades do Centro de Instrução Almirante Wandenkolk.

A Marinha divulga informações sobre embarcações utilizadas na ligação entre a Estação de Embarque do CIAW e a ilha. Esses horários, porém, estão relacionados ao funcionamento da instituição e não representam um serviço turístico aberto ao público.

Nas páginas oficiais, não foi encontrado um programa permanente de visitas turísticas à Ilha das Enxadas. Assim, qualquer acesso de visitantes deve depender de autorização, evento institucional ou atividade oficialmente divulgada pela Marinha do Brasil.

Também não é recomendável utilizar horários de lanchas publicados para alunos e militares como orientação para uma visita particular.

❓ Perguntas frequentes sobre a Ilha das Enxadas

Além dos fatos mais conhecidos, a ilha preserva curiosidades e registros que ampliam sua importância na história naval brasileira.

A ilha já abrigou uma Escola de Educação Física?

Sim. A Escola de Educação Física foi criada e instalada na Ilha das Enxadas em 1925. Ela dividiu o espaço com a Escola Naval até 1938 e continuou na ilha até 1945.

O Corpo de Marinheiros já funcionou na ilha?

Sim. Em 1939, foi criado no local o Corpo de Marinheiros, posteriormente denominado Quartel Central de Marinheiros. A organização permaneceu na ilha até 1944.

Existem fotografias antigas da Ilha das Enxadas?

Sim. O Acervo Arquivístico da Marinha e a Brasiliana Fotográfica disponibilizam imagens históricas da ilha, da Escola Naval, dos hangares, dos hidroaviões e de autoridades que visitaram o local.

Santos Dumont esteve na Ilha das Enxadas?

Sim. Um registro fotográfico de 1918 mostra Santos Dumont acompanhando o presidente Wenceslau Braz em uma visita à Escola de Aviação Naval instalada na ilha.

Qual é o lema do CIAW?

O lema institucional apresentado pelo Centro de Instrução Almirante Wandenkolk é “Eficiência, cultura e tradição”.

Um patrimônio naval da Baía de Guanabara

A Ilha das Enxadas reúne mais de quatro séculos de transformações. De ponto de retirada de pedras e armazenamento de pólvora, tornou-se hospital, lazareto, depósito naval e sede de importantes instituições militares.

Sua passagem pela história da Escola Naval e da Aviação Naval fez com que o local participasse diretamente da formação de diferentes gerações de militares brasileiros.

Atualmente, o funcionamento do Centro de Instrução Almirante Wandenkolk mantém essa vocação educacional. A ilha continua presente na paisagem da Baía de Guanabara e na história da Marinha do Brasil, não apenas como testemunho do passado, mas como espaço ativo de formação naval.